Momento-Alan-Kurdi


A fotografia de um menino sírio de 3 anos, morto à beira-mar, chegou até nós em 2015. Esse momento, apontado como um ponto de viragem, despertou (um pouco) para a catástrofe humanitária a decorrer nas margens da Europa. A Síria entrou no nosso radar. As notícias quase diárias traziam-nos refugiados sírios, números sírios, o Daesh na Síria, e a guerra da Síria. Quando embarquei na minha primeira viagem para a Grécia, também pensei que ia ao encontro de sírios. E podia, de facto, ter encontrado sírios a fugir do Daesh. Como podia ter encontrado eritreus a fugir de uma ditadura terrível, ou nigerianos a fugir do Boko Haram, ou somalis a fugir da fome e da guerra, ou, ou, ou. Mas encontrei um campo de refugiados afegãos a fugirem do regime Talibã. Escrever sobre eles não é fazê-los mais urgentes do que os restantes; simplesmente são aqueles que conheci, que ouvi, que abracei. São aqueles com quem aprendi sobre pedidos de asilo e a injustiça que tantas vezes enfrentam durante esse processo. Uma injustiça que ainda não teve o seu momento-Alan-Kurdi para que se perceba que do Afeganistão também se foge.

[Fotografia: Rohit Chawla, remake da fotografia original, com o artista e activista chinês Ai Weiwei]