‘Violent Borders’ de Reece Jones

“Tu tens que perceber que ninguém põe os seus filhos num barco a não ser que o mar seja mais seguro que a terra. Ninguém deixa a sua casa até essa casa ser uma voz suada no teu ouvido, a dizer – vai, foge de mim agora; eu não sei no que me tornei, mas sei que qualquer lugar é mais seguro do que aqui.”

“Vários Estados-Membros da UE opõem-se a qualquer operação de resgate a embarcações de migrantes, argumentando que isso só irá incentivar mais pessoas a tentarem a perigosa travessia do Mediterrâneo. A lógica por detrás desta posição é a de que, se os migrantes souberem que a UE os irá resgatar, isso irá fazer com que muitos mais decidam fazer esta viagem – mas, se esta travessia continuar perigosa, implicando a morte de milhares de pessoas, isso irá desencorajá-los de tentarem alcançar a Europa.

O primeiro problema com esta abordagem é assumir que todos os migrantes têm o luxo de decidir se devem ou não fugir dos seus países. Muitos, se não mesmo a maioria, não têm uma escolha. Esta abordagem também ignora o facto de que esta viagem já é perigosa há mais de uma década e isso nunca teve impacto na decisão dos migrantes posteriores. Na realidade, independente das mortes no mar, o número de pessoas que tentam chegar à Europa tem aumentado, e não diminuído.”

“Se existisse uma forma ordenada, e humana, para os migrantes entrarem na Europa, eles não iriam escolher as perigosas opções “oferecidas” pelos traficantes – que só tendem a cuidar bem da carga humana se existir uma recompensa para chegar viva ao destino. Como a última etapa da viagem é a travessia do Mediterrâneo, quando todo o dinheiro já foi recebido, e como os traficantes também não esperam receber os barcos de volta no final da viagem, isto significa que os barcos são de fraca qualidade, os motores são velhos, quase não existe um abrigo ou uma sombra, a quantidade de combustível é mínima, e não existem dispositivos de navegação. A comida e a água também são escassas, uma vez que o espaço é reservado para mais pessoas. Os resultados são previsíveis: barcos que metem água, erros de navegação, motores avariados e combustível insuficiente. Tudo isto leva a casos de morte por hipotermia, insolação, fome e afogamento.”

[Nota: estima-se que, desde 2004, mais de 24 mil migrantes tenham perdido a vida no Mediterrâneo, e que uma em cada quatro pessoas morra ao tentar entrar na Europa.]