Imagina

Imagina que, daqui a 3 meses, existem 2 milhões de casos de Covid-19 em Portugal, e 6 milhões na Península Ibérica. Imagina que, daqui a 6 meses, 1/3 da população europeia morreu devido ao vírus, ou devido a outras complicações de saúde que não puderam receber atenção médica, ou devido a conflitos urbanos.

Imagina que não podes ir às compras porque há grupos organizados que, através da violência, tomaram conta dos supermercados. Imagina que vês tropas na rua, ouves tiros, há conflitos e incêndios nos prédios da tua rua. Talvez no teu prédio, também.

Imagina que já não tens o que comer, nem a tua família. Imagina que já não existem trabalhos. Que não tens dinheiro. Imagina que a Europa já não é funcional, nem oferece qualquer segurança. Imagina que daqui a 9 meses tens que tomar uma decisão radical: mudar de continente.

No Oriente já não existe Covid-19. As sociedades voltaram ao normal. Existe paz e segurança. A solução é deixar a Europa. Mas… devido a muitos terem já tomado essa decisão, o Oriente fechou as fronteiras. Não tens como viajar além da Europa. Não podes sair. A não ser que… vás de forma ilegal.

Vendes todos os teus pertences, tudo. Com esse dinheiro, pagas a alguém que vai levar-te a ti e à tua família até à fronteira do Cazaquistão. São 3 meses em viagem. Comida escassa. Pouca higiene. Muito frio. E demasiada gente a viajar juntamente contigo. Tens que fazer várias partes do caminho a pé. São dias a fio em montanhas, algumas com neve. Imagina que tens um bebé ao teu colo.

Por fim, chegas ao Cazaquistão. Estamos em Março de 2021. És acolhido pelas autoridades. Metade da tua família vai para um campo de refugiados, os outros vão para outro campo. Tens que viver numa tenda com 5 outras famílias. Há uma casa de banho para mil pessoas. Está suja, podre. Todos os dias recebes 100ml de leite, um pão e uma maçã. Só.

Tens um telemóvel. Falas com os teus outros familiares. Tens saudades deles. Tens saudades do teu país, da tua casa. Por vezes, vês as notícias. Grandes grupos no Cazaquistão e restante Oriente não querem que tu estejas ali. Não querem receber pessoas de países cristãos, que vão ameaçar os seus costumes e a sua ordem social. Não querem estrangeiros, nem terroristas de saúde, a ameaçar a segurança pública. Para alguns, não passas de um rato infectado a sujar a sua sociedade tranquila.

Passaram mais 2 anos. Estamos em Março de 2023. Continuas a viver num campo de refugiados porque não há lugar para ti no Oriente.

Percebeste?

Exposição ARZO @ Alto Comissariado para as Migrações

Exposição fotográfica inaugurada a 11 de Novembro de 2019, na Janela Intercultural do CNAIM de Lisboa, em presença do Alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado. Patente até ao dia 26 de Novembro.

Fica a sugestão para uma exposição surpreendente pela qualidade fotográfica e pelas emoções capturadas.

~ Pedro Calado (Alto-comissário)

Leia também o comunicado emitido pelo ACM.

ARZO @ Instituto Piaget de Silves

A 7 de Novembro de 2019, o Projecto Arzo esteve presente na Escola Superior de Saúde do Instituto Piaget de Silves, para uma palestra sobre a pessoa refugiada, os campos de refugiados, e a forma como os profissionais de saúde podem intervir em contextos de desfavorecimento social.

As instituições de ensino superior devem ser locais de reflexão e de debate dos assuntos que marcam as sociedades. Obrigado pelo seu “retrato” desta realidade. A excelência do seu testemunho certamente que marcou cada um de nós.

~ Nelson Sousa (Director)

Livro ARZO já disponível!

Para celebrar a #refugeeweek2019, preparámos o livro ARZO, que fala da luta travada por cada refugiado a fim de alcançar aquilo que mais deseja: o abraço de outra terra, uma casa pequena sem guerra lá fora, uma noite de descanso sem medo do amanhã.

Classificado entre a crónica e o ensaio de fotojornalismo, ARZO tem como objectivo central alertar para a realidade dos refugiados, ao mesmo tempo que levanta questões sobre a leitura ocidental desta crise e dos seus protagonistas, e apela para a responsabilidade individual no sentido de tornar a Europa um continente mais informado, acolhedor, inclusivo e tolerante.

Nas palavras do Professor Rufino Ferreira, docente da Universidade Católica de Moçambique, “a autora revela uma particular sensibilidade e uma emoção muito densa e forte, com uma expressividade linguística muito boa e uma intimidade de coração na sua relação com a palavra e na sua relação com as pessoas. Arzo tenta transportar-nos para o sofrimento, os medos, os anseios, o desespero, e também a resistência, a coragem, de homens, mulheres, crianças, que são forçados a abandonarem o seu lar.

Se desejar adquirir um exemplar, entre em contacto através do e-mail projectoarzo@gmail.com ou preencha o formulário abaixo, por favor.

Exposição ARZO @ Misturado

Decorre até 10 de Julho de 2019 a exposição de fotografia “ARZO”, no acolhedor e inspirador espaço do Misturado, situado na freguesia de Arroios, a freguesia mais intercultural de Lisboa. A entrada é gratuita!

Uma das exposições mais humanas que o Misturado teve o privilégio de acolher. Com a chama da esperança sempre acesa, recebemos de braços abertos ARZO, uma exposição que, prometemos, não vai deixá-lo indiferente…

~ Marco Santos (Misturado)

Congresso Internacional do CPR

Parte 1

Cécile Kyenge, antiga Ministra italiana da Integração e membro do Parlamento Europeu, no seu discurso de abertura do Congresso Internacional do CPR (Conselho Português para os Refugiados), “Direitos Humanos e Proteção aos Refugiados”.

José Manuel Pureza, Vice-Presidente da Assembleia da República e deputado pelo Bloco de Esquerda, falou sobre a importância de relembrar os Direitos Humanos em tempo de turbulência. Um tempo turbulento “que se evidencia no facto de o indicador de acerto das políticas ter passado a ser não as pessoas e a satisfação dos seus direitos, mas o que o mercado nos diz”. Afirmou ainda que “os tempos que estamos a viver são de choque traumático para os militantes dos Direitos Humanos e da Democracia” e alertou para a crescente “aceitação da eliminação do outro como resolução do problema”.

Jorge Moreira da Silva, Director da Cooperação para o Desenvolvimento da OCDE, chamou a atenção para vários mitos que são perpetuados no discurso anti-imigração, principalmente o mito de que a Europa é o local mais afectado pela crise dos refugiados. “86% dos refugiados estão em países em vias de desenvolvimento”. Deu o exemplo dos 489 000 sul-sudaneses que, em 2016, fugiram para o Uganda, superando em muito as 362 000 pessoas que cruzaram o Mediterrâneo para chegar à Europa durante o mesmo período (segundo dados da UNHCR).

Existe também o mito de que todos os refugiados estão associados ao conflito na Síria, quando “estes são apenas 5 milhões e a situação mundial é muito mais abrangente, com 17 milhões de refugiados associados a outros contextos.” Acrescentou ainda que “apesar de meritória [a ajuda de emergência], há demasiado financiamento de emergência em vez de financiamento de desenvolvimento e prevenção que ajudaria a evitar a crise.”

Parte 2

Susan Donovan, especialista norte-americana em migrações e directora do projecto Eurita da International Rescue Committee (IRC), declarou que “limitar o número de refugiados e imigrantes nos Estados Unidos é um mau sinal para o resto mundo”, relembrando ainda que “os EUA são uma nação de imigrantes, que foi fundada por refugiados”.

Também apresentou dados que mostram que os imigrantes e refugiados “dão um contributo extremamente importante para a sociedade norte-americana”, nomeadamente, pelo facto de que, muitas vezes, criam as suas próprias empresas ou empregos, contribuindo activamente para a economia. “Em 2015, mais de 181 000 entrepreneurs refugiados geraram 4.6 bilhões de dólares, valor superior ao gerado por entrepreneurs que nasceram no país”.

O jornalista, economista e activista italo-argentino, Roberto Savio, falou de uma crise de valores. “Os governos voltaram-se para o mercado como o motor do mundo e temas importantes como a saúde, educação, assistência social, foram deixados de lado”.

Explicou também que a imigração tornou-se numa ferramenta política e que existe “uma percepção sobre a imigração diferente da realidade”.

Naquele que foi o último dia da WebSummit, alertou ainda que “os jovens hoje em dia estão agarrados à tecnologia e não debatem, não discutem os temas realmente importantes da sociedade”, afirmando que temos de lidar com estes medos e voltar a debater os valores que foram deixados para trás, caso contrário, “haverá um aumento da xenofobia, o declínio da democracia e o bloqueio total da imigração”.

 

Face à pergunta, “devemos ser tolerantes com a intolerância?”, Jorge Moreira da Silva (OCDE) sublinhou que “este não pode ser um debate entre chefes de estado; têm que ser os cidadãos. Se não houver pressão da opinião pública, um movimento social, se os cidadãos não se mobilizarem, não é possível combater a intolerância”.

 

PARTE 3

Excerto do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, no encerramento do Congresso Internacional do CPR:

“Pouco a pouco, estão a aparecer movimentos xenófobos, racistas, de fechamento das sociedades, de defesa daqueles que lá estão, não aceitando outros. A Europa, como todas as realidades sociais, é o fruto de uma convergência de gente muito diferente – o que dá precisamente a riqueza à tradição europeia. Mas está a subir essa onda: de intolerância, de falta de diálogo, de falta de compreensão, de desrespeito de um direito internacional. (…) E lutar contra isso não é lutar nas palavras, é lutar nos factos: de cada vez que tivermos de intervir, intervirmos pela positiva. Há que acolher? Acolhemos, resistindo às vozes que nos vão dizer: Não. Não, porque eles tiram emprego. Não, porque eles vêm perturbar a ordem social. Não, porque vêm criar problemas de segurança, de mudança de costumes, hábitos, comportamentos. Há que resistir.

E vocês, mais novos, têm obrigação de estar na primeira fila, porque nos menos jovens, às vezes a tentação é repetir comportamentos, é ter mais dificuldade em aceitar a mudança, ter mais dificuldade em enfrentar novos desafios. No ano em que comemoramos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, é bom que nos lembremos que declarar os direitos num papel é muito importante, mas praticá-los no dia-a-dia é muitíssimo mais importante.”

‘No Borders’ de Natasha King

“As fronteiras produzem um lado de dentro e um lado de fora, definem os que estão dentro e os que estão fora, e estabelecem um sistema de controlo que categoriza aqueles que desejam movimentar-se: o migrante trabalhador, o migrante trabalhador especializado, o requerente de asilo, o refugiado, etc, e, através deste processo de categorização, são criados grupos de pessoas que carregam um rótulo de não-status (o imigrante ilegal). Ou seja, a ilegalidade dos migrantes é um (não-)status que é produzido pelo regime de controlo e conferido a indivíduos quando o seu movimento é visto como problemático. O regime de fronteiras é produtivo.  Produz ilegalidade humana.”

“A crise humanitária que é um problema para os migrantes, começou a ser apresentada como uma crise migratória que é um problema para os governos europeus. (…) Com a adesão a Schengen, a fronteira externa da Grécia tornou-se a fronteira da UE e do Espaço Schengen (ES). Como tal, a Grécia tornou-se responsável não apenas por “proteger” e “defender” as suas próprias fronteiras, mas por fazê-lo em nome de todos os estados membros do ES, uma vez que chegar à Grécia passou a significar chegar à Europa.”

“As tentativas de bloquear o movimento das pessoas pelos outros estados da Rota dos Balcãs fez com que a Grécia se tornasse numa gigantesca prisão para muitas pessoas sem documentos (em 2012, o seu número chegou a um milhão). Estas pessoas são forçadas a viver num presente perpétuo, sem capacidade de fazer planos, de antecipar e assumir riscos, ou de imaginar um futuro. Viver neste presente perpétuo é difícil e traumatizante.”

‘Violent Borders’ de Reece Jones

“Tu tens que perceber que ninguém põe os seus filhos num barco a não ser que o mar seja mais seguro que a terra. Ninguém deixa a sua casa até essa casa ser uma voz suada no teu ouvido, a dizer – vai, foge de mim agora; eu não sei no que me tornei, mas sei que qualquer lugar é mais seguro do que aqui.”

“Vários Estados-Membros da UE opõem-se a qualquer operação de resgate a embarcações de migrantes, argumentando que isso só irá incentivar mais pessoas a tentarem a perigosa travessia do Mediterrâneo. A lógica por detrás desta posição é a de que, se os migrantes souberem que a UE os irá resgatar, isso irá fazer com que muitos mais decidam fazer esta viagem – mas, se esta travessia continuar perigosa, implicando a morte de milhares de pessoas, isso irá desencorajá-los de tentarem alcançar a Europa.

O primeiro problema com esta abordagem é assumir que todos os migrantes têm o luxo de decidir se devem ou não fugir dos seus países. Muitos, se não mesmo a maioria, não têm uma escolha. Esta abordagem também ignora o facto de que esta viagem já é perigosa há mais de uma década e isso nunca teve impacto na decisão dos migrantes posteriores. Na realidade, independente das mortes no mar, o número de pessoas que tentam chegar à Europa tem aumentado, e não diminuído.”

“Se existisse uma forma ordenada, e humana, para os migrantes entrarem na Europa, eles não iriam escolher as perigosas opções “oferecidas” pelos traficantes – que só tendem a cuidar bem da carga humana se existir uma recompensa para chegar viva ao destino. Como a última etapa da viagem é a travessia do Mediterrâneo, quando todo o dinheiro já foi recebido, e como os traficantes também não esperam receber os barcos de volta no final da viagem, isto significa que os barcos são de fraca qualidade, os motores são velhos, quase não existe um abrigo ou uma sombra, a quantidade de combustível é mínima, e não existem dispositivos de navegação. A comida e a água também são escassas, uma vez que o espaço é reservado para mais pessoas. Os resultados são previsíveis: barcos que metem água, erros de navegação, motores avariados e combustível insuficiente. Tudo isto leva a casos de morte por hipotermia, insolação, fome e afogamento.”

[Nota: estima-se que, desde 2004, mais de 24 mil migrantes tenham perdido a vida no Mediterrâneo, e que uma em cada quatro pessoas morra ao tentar entrar na Europa.]

Momento-Alan-Kurdi


A fotografia de um menino sírio de 3 anos, morto à beira-mar, chegou até nós em 2015. Esse momento, apontado como um ponto de viragem, despertou (um pouco) para a catástrofe humanitária a decorrer nas margens da Europa. A Síria entrou no nosso radar. As notícias quase diárias traziam-nos refugiados sírios, números sírios, o Daesh na Síria, e a guerra da Síria. Quando embarquei na minha primeira viagem para a Grécia, também pensei que ia ao encontro de sírios. E podia, de facto, ter encontrado sírios a fugir do Daesh. Como podia ter encontrado eritreus a fugir de uma ditadura terrível, ou nigerianos a fugir do Boko Haram, ou somalis a fugir da fome e da guerra, ou, ou, ou. Mas encontrei um campo de refugiados afegãos a fugirem do regime Talibã. Escrever sobre eles não é fazê-los mais urgentes do que os restantes; simplesmente são aqueles que conheci, que ouvi, que abracei. São aqueles com quem aprendi sobre pedidos de asilo e a injustiça que tantas vezes enfrentam durante esse processo. Uma injustiça que ainda não teve o seu momento-Alan-Kurdi para que se perceba que do Afeganistão também se foge.

[Fotografia: Rohit Chawla, remake da fotografia original, com o artista e activista chinês Ai Weiwei]